A constituição do Reino I

A constituição do Reino I – onde reside a verdadeira felicidade

 A humildade que nos torna filhos 

“Pobreza de espírito é a bolsa onde Cristo coloca as riquezas de sua graça”. Rowland Hill 

            Vi, certo dia, um filme agonizante. A trama se dava em um avião onde um jovem piloto teve de encarar uma situação de extremo risco. Em poucas palavras, o avião estava despencando dos ares, o jovem gritava pelo rádio: Ajude-me! Ajude-me! Porém da torre, as palavras de direção eram: abandone o controle do avião, pois assim ele tentará estabilizar-se sozinho. O jovem, intrigado e não pouco confuso, não soube se essa é a melhor escolha. Demora-se por demais e em desespero confia em si mesmo. Prefere estar no controle, uma máquina não pode fazer isso para mim, pensou. Então, em questão de minutos, seu avião bate em uma montanha e se despedaça por inteiro, tirando a vida daquele que achava ser o solucionador de seus problemas.

Quem está no controle do seu avião hoje?

 

Os herdeiros, portanto, filhos do Rei, devem saber de cór qual é a constituição do Reino de seu Pai. Tais mandamentos seguidos de promessas são os parâmetros a serem seguidos, para que, nos façam evitar a incorporação das famosas máscaras.

            E qual é essa constituição? Onde ela está escrita? O que está escrito nela? A constituição é simplesmente as oito bem aventuranças ditas por Jesus e descritas por Mateus em seu livro no capítulo 5.  Elas contêm verdades que clareiam o caminho dos filhos. São características de caráter exaltadas por Cristo e consideradas cruciais para os cidadãos do reino.

            Alguns teólogos afirmam que se toda a bíblia se perdesse, mas houvesse apenas um texto que eles pudessem salvar, salvariam as bem-aventuranças. A constituição do reino.

            Deus trabalha com recompensas! Em todas as bem-aventuranças Cristo destaca o que receberemos se nos submetermos a essa conduta de vida – se já não bastasse o fato de sermos nós seus servos e, portanto devedores de obediência, Deus nos promete grandes bênçãos para essa obediência. Tais bênçãos podem e devem ser fatores motivadores para encararmos tais desafios que são sempre contrários à nossa natureza e “esmurrarmos” nossos corpos, assim como Paulo afirma em 1 Coríntios 9:27: “Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado. com o fim de alcançarmos tais promessas”. Lembrando o fato de não serem essas promessas meros brindes que logo se acabam, que tem vida-útil; mas nós estamos tratando de recompensas eternas! Infindáveis! Quanto mais dignas são elas, então, de nosso total empenho e dedicação?

“E todo aquele que luta de tudo se abstém; eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, uma incorruptível”. 1 Coríntios 9:25

            Eu convido você, caro leitor, a se dedicar em memorizar essas palavras da escritura em seguida. Isso ajudará na sua luta contra a hipocrisia, que na verdade, é sutil e muito presente naqueles que se deixam ser sondados.

            Jesus diz: “Bem aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos céus. Bem aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem aventurados os mansos, porque herdarão a terra. Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. Bem aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. Bem aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus”.

                                                                                                          Mateus 5: 3-10

            As beatitudes mostram que o caminho para o ser feliz de verdade, não tem muito a ver com aquilo que costumamos ouvir e muitas vezes acreditar. Certamente não tem a ver com dinheiro, com necessidades supridas, com lazer, com uma boa família, com pessoas ao nosso redor, ou circunstâncias favoráveis. A verdadeira alegria vem de um coração que se posiciona a se comportar de uma forma contraditória ao esperado pelo mundo, mas o aplaudível pelo único que importa.

            Tive a oportunidade de ouvir um estudioso que há 23 anos pesquisava, em sua universidade local, Oxford na Inglaterra, sobre a felicidade e como ser feliz. Ele discorreu como foi difícil chegar a um denominador comum, mas que finalmente chegara a uma conclusão. Foi quando em sua viagem à África, se admirou em ver tantos sorrisos e tamanha alegria. Por quê? Intrigado, voltou a seu escritório e olhou ao redor, então disse consigo mesmo: como nós que temos conforto, alimento em abundância e uma vida tão suprida, podemos ser tão infelizes, enquanto outros, sem nada do que temos são tão felizes? A conclusão é simples e óbvia: os destituídos aprenderam a ser contentes com pouco. Enquanto a mídia nos diz que ter é ser, nunca nos satisfaremos com o que temos, pois claro, somos bombardeados com a próxima moda que dita o que é ser feliz.

            Nos tempos de Jesus, diante de circunstâncias adversas os fariseus diriam aos seus seguidores: volte atrás e reveja seus atos. Os saduceus diriam aos seus: ignore isso, e simplesmente prossiga. Os essênios (homens que pregoavam a santificação através de uma total separação do mundo, isolando-se) diriam: Fuja disso. Os zelotes (homens do movimento político judaico do século I que procurava incitar o povo da Judeia a rebelar-se contra o Império Romano e expulsar os romanos pela força das armas) diriam: Enfrente isso! Jesus, com sua voz suave, porém estremecedora, gritaria em um sussurro: Todos estão errados! Diante de uma circunstância adversa e ameaçadora, não olhe para fora, mas para dentro de si mesmo, pois as forças para vencê-las não esta exterior a você, porém esta em você.

            Cristo mostrou nesse ensinamento considerado, nada menos, que o mais importante dito de todos os tempos, que a alegria verdadeira (bem-aventurado) está em reconhecer que tipo de combustível move o seu coração e focar em uma transformação de intenções que afetará, conseguintemente, tudo e todos à sua volta.

            Bem-aventurança deriva do grego “makarios” e outras palavras correlatas (“makarismos”, “makarizo”). Significa estado de satisfação completa, perfeitamente independente das vicissitudes, das instabilidades do mundo; é indiferente a toda realidade externa e está vinculada a uma vida predominantemente contemplativa. Tem um caráter intemporal por ser tratado por Jesus como uma recompensa no tempo presente para aqueles que se posicionam com o coração de uma determinada forma.

            Interessante compreender que essa palavra era usada pelos gregos e romanos somente em duas situações: para mostrar a felicidade, ou o estado de espírito, de seus deuses pagãos; ou para descrever a condição daqueles que passaram pela morte e hoje gozam dessa alegria eterna. Jesus pega essa mesma palavra e a emprega como sendo real e possível para os vivos aqui na terra.

 

Pobres de espírito?

O orgulho é inimigo declarado da verdadeira alegria

            Usei o ponto de interrogação para dois questionamentos relevantes: o que é ser pobre de espírito e quem são os pobres de espírito. Para discorrer sobre o primeiro ponto vou revelar que desde muito jovem eu tive dúvidas quanto à interpretação desse texto, a final, devemos ser pobres espiritualmente? Com pouco de Deus ou mendigando sua ajuda? Certamente não.

            O que é ser pobre? Ouvi uma definição certo dia que me deixou muito esclarecida: “Rico não é quem tem muito, é quem precisa de pouco. Pobre não é quem tem pouco, mas quem precisa de muito.” Ser necessitado, carente, precisado é a característica exaltada por Jesus aqui. A palavra grega para pobre é: “penichros”, usada em Lucas 21:2 para descrever a condição da viúva pobre que deu tudo que tinha, até seu sustento, para a casa do Senhor. Incrivelmente, essa palavra “penichros” não é usada em Mateus 5:3 para dizer a condição de espírito, mas sim “ptóchos”, que quer dizer aquele que é totalmente destituído de condições para seu sustento, aquele que mendiga para sobreviver. “Ptóchos” é usada na história de Lázaro em Lucas 16:20-21, e é a condição daquele que desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico. Você acha isso radical? Isso extremo? Revolucionário? Significa, você é um mendigo, significa, você não tem NADA, significa, reconhecer que você não é ninguém.

            Assim é o início da caminhada cristã. Um dia, certo homem veio a Jesus, à noite, homem cheio de pompa, com uma reputação impecável, com um estilo de vida copioso. Nicodemos, em João 3, ao contrário do muito esperado, não é elogiado, mas é ensinado que para entrar no reino de Deus precisa nascer de novo. O que é nascer de novo? É rejeitar os aplausos, os títulos, as honras e se tornar um bebê, pequeno, totalmente dependente, carente, necessitado de alguém para continuar a viver. Percebe que esse é o mesmo ensinamento de Mateus 5:3?

            O homem moderno cresce com a mentalidade muito direcionada pelo secularismo mundano, as direções dadas pelo ditador desse século que são: com riquezas e prosperidade financeira estão alegria e felicidade verdadeiras.

            Contam-se a história de um homem que tinha um amigo chegado que nota a tristeza visível de seu amigo e pergunta o esperado: Por que você esta triste? Ele respondeu: minha tia morreu a duas semanas e me deixou uma herança de 10 mil reais. Mas isso é ótimo, respondeu o amigo. Não, disse ele, você não entende semana passada meu avô morreu me deixando 100 mil de herança. Eu não compreendo mesmo, respondeu o amigo, não são boas notícias? Por que você ainda esta triste? É que, disse ele, essa semana ninguém morreu!

            Essa é a mentalidade de uma sociedade consumista, onde nunca é o bastante. Vemos, por exemplo, a vida das famosas celebridades que estão se esbanjando em prazeres desenfreados, com seu dinheiro compram tudo, menos, o que realmente importa: felicidade. Por quê? Pois não são pobres! Pobres de coração.

            “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes”. Tiago 4:6

            Essa é a declaração mais cruel de Deus contra os orgulhosos e mais afável para, não somente uma classe de crentes, mas todos os cristãos. A palavra resistir em grego, “antitassó”, significa literalmente, se levantar em batalha contra. Contudo, Deus dá graça aos humildes e dependentes. Graça, em grego, “xaris”, significa: favor, disposição para, inclinado para dividir benefícios, favorável para. Os humildes são agraciados por Deus, influenciados pela essência do próprio Deus em seus corações. “Xaris”, deriva da palavra “xará” que é nada mais nada menos que a palavra grega para alegria. A mesma alegria que foi o prêmio de Cristo por nos comprar com alto preço, descrita em Hebreus 12:2 – “tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus.”

            Tudo que fazemos, cada inspiração, cada passo dado, cada sermão pregado, Deus nos concede graça para tal, não provém de nós. Nós não somos os donos de nós mesmos, mas Deus é, e por isso somos gratos a Ele por isso. Gratidão é o coração da humildade.

            Isaías quando teve um encontro com Deus, mesmo sendo um profeta, homem que aparentemente fazia tudo certo, disse: ai de mim! Estou perdido!

            Um pescador, quando derrotado de uma pescaria que não rendeu nem um peixe, é convidado pelo Salvador a lançar as redes do outro lado do barco e recolhe multidão de peixe, então diz a Jesus: Aparta-te de mim, pois sou pecador! Esse é o lugar que todos devemos estar e permanecer para alcançarmos a eternidade e a felicidade eterna.

            Ao comentar sobre isso em seu livro As bem aventuranças Charles H. Spurgeon, disse:

            “É digno de uma nota de agradecimento que essa bem-aventurança evangélica desça ao nível exato onde a lei deixa-nos, depois de ter feito por nós o melhor que pôde dentro de seu poder e desígnio. O máximo que a lei pode fazer por nossa humanidade caída é mostrar-nos nossa pobreza espiritual, e convencer-nos dela. Ela não pode enriquecer o homem sob nenhum ponto de vista; seu maior serviço é arrancar-lhe sua riqueza imaginária de justiça própria, mostra-lhe seu endividamento esmagador com Deus, e pô-lo com o rosto em terra cheio de desconfiança de si mesmo.

            Como Moisés, a lei ensina o caminho que parte de Gósen, que conduz ao deserto, e que leva às margens de um rio intransponível, mas não pode fazer nada mais; necessitamos de Josué – Jesus – para que divida o Jordão e nos conduza à terra prometida.

            A lei rasga o desejável manto babilônico de nossos méritos imaginários em dez pedaços, e demonstra que nosso berço de ouro é simples escória, e assim nos deixa, “desnudos, pobres e miseráveis.” Até este ponto desce Jesus; seu nível preciso de bênção chega até a beira da destruição, resgata o perdido e enriquece o pobre. O Evangelho é ao mesmo tempo pleno e livre.”

            Algumas traduções de Mateus 5:3 diz:

            “Grandes bênçãos pertencem àqueles que sabem que são espiritualmente carentes. O reino de Deus pertence a eles.” - Easy to read

            “Felizes são as pessoas desesperadas, porque o Reino dos céus é delas.” Bíblia commom english

            “Deus abençoa aqueles que dependem somente nEle. Eles pertencem ao Reino dos céus.” Contemporary english 

            Para contemplar seu significado completo ouso parafrasear esse texto da seguinte forma: “A alegria completa está nas mãos daqueles que têm Deus como seu amigo, dependendo e se satisfazendo somente Nele, eles não terão nenhuma dificuldade em passar a eternidade ao Seu lado.”

            É digno que eu ainda me tenha nessa bem-aventurança por mais um pouco, pois sendo a primeira, está diretamente responsável por possibilitar o alcance das outras que se seguem. Fato é que não nos é dado um mandamento difícil, contudo essa aventurança é exaltada mais pela ausência do que pela presença de qualidades louváveis.

            Como um professor procura alunos, um médico doentes, um construtor pedreiros, assim o Senhor de toda terra busca quem necessita dEle. Que todo necessitado se farte desse banquete de consolação.

            Que diremos pois? Podemos nos qualificar como cristãos? Somos pobres de espíritos? Somos humildes? A definição básica de humildade esta descrita em Filipenses 2:3b “considere cada um os outros superiores a si mesmo.” Assim pensamos? Assim agimos?

            Nossa arrogância sobe para Deus como desagradável, insuportável até. Ao ponto do Senhor não nos poder ouvir, não mais nos responder. O orgulho do homem o ensurdece e o emudece, está insensível ao reino de Cristo e não mais e operante nele, sua inutilidade logo lhe comprará suas passagens ao inferno.

            A humildade nos proporciona como em uma escada, sendo o primeiro degrau, o alcanço de outras bem aventuranças.  Como se fosse a porta de entrada aos céus, o carimbo, a identificação de cidadão celeste.

 

Encontrando os verdadeiros filhos

Diferentemente dos bons atores os filhos são humildes porque reconhecem a santidade de seu Deus e a perversidade de seu próprio coração.

Os filhos são sinceros, tem coragem de se olhar no espelho da verdade e declarar sua impiedade.

Os filhos são repreensíveis, não se escondem atrás da reputação que os homens lhe deram.

Os filhos permitem serem insultados, sem contudo revidar.

Os filhos sorriem da mesma forma para todos, sem distinção alguma.

Os filhos reconhecem seus pecados e não hesitam em, com lágrimas de arrependimento, buscar o perdão.

Os filhos abrem mão de um direito para que, em troca, acumulem brasas vivas sobre suas cabeças.

Os filhos sofrem para que outros se regozijem, choram para que outros possam sorrir, sentem dor para que outros, desconhecidos, possam nascer.

Os filhos não trocam míseras recompensas passageiras por aquela que é incomparavelmente maior e incorruptível.

Os filhos não negociam eternidade.

Os filhos, aqueles que realmente os são, nunca pensarão de si mais dos que convém. Contudo, com muito temor fugirão dos elogios, pois sabe que neles reside o poder de completamente destruí-los.

Essas são características dos bons atores que saíram de cena e deixaram Jesus dirigir sua história.

 

Preciosidade está no grande?

Mais valor tem uma pedra gigante

Ou um minúsculo diamante? 

Preciosidade está no estrondoso?

Mais valor tem um enorme templo

Ou um pequeníssimo ato de exemplo? 

Preciosidade está no admirável?

Mais valor tem um colar de bijuteria

Ou uma única pérola pequenina? 

Olhe para a estátua que construí

Veja depois os destroços que acumulei

Contudo veja também o simples camponês

Que não construiu palácios nem suntuosas construções

Mas furou em seu jardim um poço

Que até hoje sacia suas gerações

(Laís Guerra)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Preciosidade está no grande?

Mais valor tem uma pedra gigante

Ou um minúsculo diamante?

 

Preciosidade está no estrondoso?

Mais valor tem um enorme templo

Ou um pequeníssimo ato de exemplo?

 

Preciosidade está no admirável?

Mais valor tem um colar de bijuteria

Ou uma única pérola pequenina?

 

Olhe para a estátua que construí

Veja depois os destroços que acumulei

Contudo veja também o simples camponês

Que não construiu palácios nem suntuosas construções

Mas furou em seu jardim um poço

Que até hoje sacia suas gerações

(Laís Guerra)